Não por acaso, snipers eram uma espécie de subraça até a II Guerra; se capturados, os atiradores de elite inclusive sofriam maus-tratos que outros prisioneiros não recebiam. É como se o ofício do sniper fosse não só desleal como desumano em relação a um soldado "normal". Obviamente, com o tempo - e especialmente com as novas tecnologias de combate - tudo mudou. A partir do Vietnã o exército dos EUA começou a incentivar no front o que chamava de quick kill - instruir soldados a descarregar rajadas de fuzil ao invés de mirar meticulosamente no inimigo, o que diminui a chance de "perceber" a pessoa do lado oposto.
A partir das guerras no Iraque, mísseis como o Scud e o Tomahawk viraram astros; snipers, semi-deuses. Mas embora gastem bilhões para fazer a guerra por controle remoto, os EUA ainda não conseguiram eliminar completamente o enfrentamento corpo a corpo. É dessa angústia que trata o documentário Restrepo, indicado ao Oscar: como homens treinados para fazer a guerra à distância lidam com a súbita presença do outro?
Junger e Hetherington instalam câmeras nos capacetes dos soldados e se enfiam pessoalmente no meio do fogo cruzado para registrar a rotina barulhenta do vale. São muitos quilos de cápsula de fuzil, muitos aborrecimentos (como o afegão que quer ser recompensado porque sua vaca, presa num arame farpado, foi sacrificada pelos estrangeiros) e algumas baixas. Uma delas é Juan Sebastián Restrepo, soldado morto em combate cujo nome foi usado para batizar o ponto que o exército conquistou morro acima, uma das poucas glórias da tour americana pelo Korengal.
Se mesmo entre os pares há diferenças no contato pessoal ou remoto, é diante dos afegãos que os ruídos na comunicação são mais dramáticos. Encontros semanais com os anciãos do vale, em que o chefe do exército tenta explicar a operação, só acentuam mais as diferenças culturais. É regra nos documentários de guerra atuais deixar clara essa diferença, mas em Restrepo, por sua geografia que aproxima os dois lados, ela é central. A proximidade geográfica, paradoxalmente, só salienta o distanciamento entre os locais e os invasores.
Tudo no filme serve para construir uma tensão de opostos que desemboca no encontro final. Não estraguemos a surpresa aqui, mas vale dizer que o clímax de Restrepo é exemplar na hora de mostrar como os EUA, em sua gradual automatização da guerra, literalmente perde as palavras na hora de explicar como é encontrar o inimigo de frente.
0 comentários:
Postar um comentário